O Acre por quem o vive: a trajetória de 16 anos de Tácita Muniz no jornalismo
Marcos Dione, do Notícia Imediata

A trajetória da jornalista acreana Tácita Muniz é um testemunho de resistência narrativa e compromisso ético com o Norte do Brasil. Com 16 anos de carreira completados neste ano de 2026, Tácita consolidou sua voz ao perceber que a Amazônia era frequentemente descrita por quem jamais pisou em seu solo. “Percebi que a narrativa e as reportagens sobre o Norte e a Amazônia eram, muitas vezes, produzidas por pessoas que sequer conheciam nossa região e suas especificidades”, reflete ela, destacando que sua missão tornou-se retomar o protagonismo para que os próprios locais pudessem falar sobre sua realidade.

Durante quase 11 anos no g1, onde atuou como repórter e editora-chefe, Tácita foi peça-chave na expansão da visibilidade do Acre. Ela relembra que a implementação da página regional permitiu unir a vida nas comunidades a dados ambientais antes escassos. “Nessas produções, abordávamos não apenas a vida nas comunidades, mas também dados sobre o Meio Ambiente, além de pesquisas e personalidades que se tornaram referência na região”, pontua. Para ela, o diferencial de seu trabalho reside na vivência direta, buscando vivenciar as histórias em vez de apenas chegar com uma lista de perguntas.
A humanização é a espinha dorsal de seu método, pois ela acredita que o jornalismo precisa ser sentido no detalhe. “O que faço é ouvir e observar atentamente aquilo que estou apurando, pois muitas vezes um gesto ou detalhe revela muito a um olhar treinado”, explica. Tácita defende que a responsabilidade de contar a história das pessoas é enorme e deve ser exercida com profundo respeito à trajetória de cada uma delas, garantindo que os entrevistados sejam, de fato, os donos de suas próprias narrativas.

Essa sensibilidade foi posta à prova em coberturas de extrema complexidade, como o avanço das facções criminosas no Acre e a crise migratória. “Cobrir momentos tensos, como o boom das facções iniciado em 2015/2016, deixou marcas profundas em mim”, revela a jornalista. Ela recorda que a redação estava constantemente exposta a ataques e rebeliões para levar ao mundo a realidade vivida no estado. “Outro fato histórico foi a crise migratória, que nos atravessava com as histórias de pessoas em busca de recomeço”, completa.
Entre os momentos mais impactantes, Tácita destaca a cobertura das vítimas do DDT. A urgência do tema trouxe uma carga emocional avassaladora que a marcou profundamente. “Particularmente, as vítimas do DDT me marcaram muito, pois foram dias intensos de produção e, quando a matéria foi publicada, alguns dos entrevistados que estavam na chamada ‘fila da morte’ já haviam falecido”, desabafa. Esse episódio reforçou sua consciência sobre o peso do tempo e da voz que o jornalismo dá aos invisibilizados.

A pandemia de Covid-19 foi, contudo, o período mais exigente de sua trajetória, unindo números e sensibilidade. “Além de acompanhar os números, atualizávamos um memorial de vítimas em conjunto com todos os g1 do Brasil”, conta. Tácita recorda como a população recorria à imprensa como um último recurso de ajuda. “Foi uma época extremamente tensa, e impressionava ver como as pessoas buscavam a imprensa para conseguir um leito ou algum tipo de socorro”, relembra sobre os anos que moldaram sua maturidade profissional.
Formada na escola do impresso pelo jornal O Rio Branco em 2010, Tácita acompanhou a transição para o digital com um olhar atento e, por vezes, crítico. “Sou um pouco crítica em relação a textos mais rasos, produzidos apenas para se encaixar nesse ritmo acelerado”, confessa. Embora reconheça que o mercado exige agilidade, ela se mantém apaixonada por reportagens envolventes e completas. “Acredito que o jornalismo de profundidade sempre terá seu valor, apesar da sobrecarga que a velocidade atual impõe aos profissionais”, analisa.

No exercício do jornalismo investigativo, a segurança de Tácita reside no rigor ético e na apuração minuciosa. Com passagens por veículos como Amazônia Real e Mongabay, ela já enfrentou ameaças e processos, mas ressalta que o cuidado técnico é seu maior escudo. “Já enfrentei ameaças e até processos, mas nunca perdi uma ação, justamente pelo cuidado que tenho com o que faço”, afirma. Para ela, estabelecer um vínculo de confiança e cercar-se de provas e especialistas é fundamental para exercer a profissão com retidão.
Para a nova geração, Tácita deixa um conselho pautado na paixão e na função social da escrita. “Tenho uma visão um pouco romântica: sou do tempo em que sonhávamos em mudar o mundo pelas letras. Pode ser utópico, mas sempre me senti realizada em mudar, nem que fosse, o mundo de uma única pessoa”, conclui. Para ela, ser jornalista é ter a consciência de que se está escrevendo a história, dando voz a quem é silenciado e documentando a cultura de uma região que pulsa e resiste.

