Morre Israely Lima, ícone trans do Carnaval acreano; sepultamento solitário escancara hipocrisia LGBT
Marcos Dione, do Notícia Imediata

O Carnaval de Rio Branco perdeu uma de suas figuras mais irreverentes e marcantes. Faleceu na tarde deste sábado, no Pronto Socorro da capital, a cabeleireira e defensora da alegria Israely Lima. Conhecida por sua personalidade vibrante, ela ganhou notoriedade e o carinho do público ao se candidatar por diversas vezes ao título de Rainha Trans do Carnaval acreano, transformando suas participações em momentos icônicos que frequentemente viralizavam e rendiam memes inesquecíveis nas redes sociais.
Além de sua forte ligação com a maior festa popular do país, Israely viveu uma trajetória de batalhas e superação. Mulher transexual, ela trabalhou por anos como cabeleireira e também recorreu aos programas sexuais como forma de subsistência, dividindo sua rotina e sua história de vida entre os desafios cotidianos no Acre e períodos em que residiu e trabalhou na Europa. Sua partida, decorrente de complicações causadas por uma pneumonia, deixa um vazio na crônica cultural e na memória da noite acreana.
O sepultamento da carnavalesca está programado para acontecer na manhã deste domingo, às 8h, no Cemitério Morada da Paz. No entanto, o momento de despedida carrega uma dura e solitária realidade: Israely será sepultada sem a presença de nenhum familiar biológico, evidenciando o isolamento e o distanciamento que muitas vezes marcam a trajetória de pessoas trans que rompem barreiras sociais e geográficas ao longo da vida.
Diante da ausência da família, a dignidade do adeus a Israely está sendo garantida exclusivamente pelo esforço de seu amigo pessoal, Wellington Gomes. É ele quem assumiu toda a responsabilidade pela organização do sepultamento, cuidando dos trâmites necessários para que a carnavalesca receba as últimas homenagens. Wellington tem sido o único porto seguro da memória da amiga neste momento final de dor.
Por outro lado, o cenário do velório e sepultamento expõe uma contundente crítica ao ativismo local. A despedida de Israely ocorre sem qualquer tipo de apoio da Associação dos Homossexuais, da Associação de Trans ou de qualquer outro movimento social que publicamente afirma lutar pela dignidade e pelos direitos das pessoas LGBT no Acre. O silêncio e a ausência dessas entidades, que deveriam acolher os seus nos momentos de maior vulnerabilidade, contrastam amargamente com a história de uma mulher que, à sua maneira, deu visibilidade e rosto à comunidade trans do estado.
