Mais de 5 mil acreanos assistem à tortura e morte de Jesus em encenação: espetáculo de fé ou culto à violência?
Marcos Dione, do Notícia Imediata

No último fim de semana, mais de cinco mil pessoas se reuniram em Rio Branco, capital do Acre, para acompanhar a tradicional encenação da Paixão de Cristo — uma representação teatral que retrata os últimos momentos de Jesus, desde sua prisão até a crucificação. Embora o evento tenha sido promovido como uma manifestação de fé e religiosidade cristã, é impossível ignorar o aspecto cada vez mais performático e, por vezes, cruel da encenação: uma multidão aplaudindo e filmando, enquanto um ator, no papel de Jesus, é chicoteado, arrastado, humilhado e simulado morto em praça pública.
O que deveria ser um momento de reflexão espiritual sobre amor, sacrifício e perdão, tem se transformado em um verdadeiro espetáculo de sofrimento — com direito a gritos de “crucifica!” do público e longas sequências de violência física encenada. A pergunta que surge é inevitável: estamos mesmo celebrando a fé ou consumindo dor como entretenimento?
A Paixão como Show
O evento, que acontece anualmente na Semana Santa, reúne fiéis, curiosos e até turistas. A produção é grande: figurinos bem trabalhados, equipamentos de som, iluminação dramática e até efeitos especiais para tornar o sofrimento de Jesus mais “realista”. Tudo pensado para emocionar, chocar e prender a atenção da plateia. Mas essa supervalorização do sofrimento levanta um questionamento profundo: por que estamos tão dispostos a aplaudir uma cena de tortura, mesmo que simbólica?
Na encenação deste ano, os gritos do ator representando Jesus ecoaram por toda a Concha Acústica de Rio Branco. Ele foi chicoteado por soldados romanos, caiu repetidamente sob o peso de uma cruz cenográfica e foi pregado simbolicamente, em uma sequência longa e carregada de dor. O público, em silêncio solene ou com celulares em punho, registrava cada instante — como se fosse um clipe ou uma cena de novela. Algumas crianças choravam, outras observavam com fascínio. Havia algo profundamente desconfortável na naturalidade com que se consumia essa encenação brutal.
O Efeito “Reality Show” da Fé
É impossível não notar a semelhança entre essas encenações religiosas e os formatos televisivos de entretenimento que exploram o sofrimento humano. Assim como nos realities, há um enredo, heróis, vilões e muita emoção. Mas, nesse caso, o sofrimento de Cristo se torna o centro do show, com pouco espaço para a mensagem de esperança e renovação que a Páscoa representa.
Pior: essa repetição anual da violência pode anestesiar a sensibilidade das pessoas. Assistir à tortura de um homem — mesmo que de forma simbólica — com tamanha frequência e normalidade pode transformar o sagrado em espetáculo, o simbólico em sádico. Há um limite entre representar e glorificar a dor?
Onde Está a Reflexão?
Pouco se fala, durante o evento, sobre os ensinamentos de Cristo que vão além da cruz: a compaixão, o amor ao próximo, o perdão. A encenação, ao invés de ser um convite à transformação pessoal e à prática do bem, muitas vezes se resume a uma catarse coletiva centrada na violência.
Quantos dos presentes saíram da praça determinados a agir com mais empatia? Quantos refletiram sobre suas atitudes e sobre o sentido profundo da vida de Jesus? Ou será que a maioria apenas gravou os melhores trechos para postar nas redes sociais?
Uma Celebração da Dor em uma Terra de Sofrimento
O Acre, um estado marcado por desafios sociais, pobreza, violência urbana e abandono institucional, talvez encontre na Paixão de Cristo um espelho de sua própria realidade. O sofrimento de Jesus pode ser uma metáfora que ecoa no coração de um povo acostumado a carregar cruzes invisíveis todos os dias. Mas transformar isso em um espetáculo sem crítica pode apenas reforçar a ideia de que sofrer é destino — e não algo a ser superado.
Conclusão: A Fé Precisa de Novas Narrativas
A representação da Paixão de Cristo tem valor histórico e cultural, sem dúvida. Mas é preciso repensar a forma como ela é apresentada, especialmente diante de um público que, muitas vezes, consome dor com a mesma naturalidade com que assiste a um filme de ação. É preciso lembrar que a mensagem central da Páscoa não é a tortura, mas a esperança.
Se mais de cinco mil pessoas se reúnem para ver Jesus ser humilhado e morto, talvez seja hora de perguntar: quantas estariam dispostas a se reunir para ouvir e praticar seus ensinamentos?
Enquanto a fé continuar sendo consumida como espetáculo, corre-se o risco de esquecer o essencial: que o verdadeiro milagre da Páscoa não está no sofrimento de Jesus, mas na possibilidade de renascer como seres humanos melhores.
