Maduro fez na Venezuela o que Bolsonaro queria fazer no Brasil, continuar no poder mesmo sem aprovação da população
Editorial do Notícia Imediata

A comparação entre o regime de Nicolás Maduro na Venezuela e as movimentações políticas de Jair Bolsonaro no Brasil revela que, embora situados em campos ideológicos opostos, ambos compartilham uma gramática comum de erosão democrática. O ponto de convergência mais nítido é a tentativa de subverter o princípio da alternância de poder, transformando o processo eleitoral de uma escolha soberana do povo em uma ferramenta de ratificação de um projeto personalista. Enquanto Maduro consolidou uma autocracia de fato, o Brasil assistiu a uma tentativa de mimetizar esses métodos para evitar a derrota nas urnas.
Na Venezuela, a perpetuação de Maduro foi construída através da captura absoluta das instituições. Ao longo de anos, o chavismo aparelhou o Tribunal Supremo de Justiça e o Conselho Nacional Eleitoral, esvaziando qualquer possibilidade de fiscalização independente. Esse cenário permitiu que o regime não apenas perseguisse opositores, mas também manipulasse resultados eleitorais de forma sistêmica, culminando na eleição de 2024, onde a vontade popular foi ignorada em favor da manutenção do status quo ditatorial.
No Brasil, o método bolsonarista seguiu uma cartilha semelhante de deslegitimação do sistema. Durante anos, a narrativa oficial focou no ataque sistemático às urnas eletrônicas e ao Tribunal Superior Eleitoral, buscando criar no imaginário do eleitor a ideia de que qualquer resultado que não fosse a vitória do atual mandatário seria fruto de fraude. Essa estratégia visava preparar o terreno para um “autolope”, onde a descrença nas instituições serviria de pretexto para uma intervenção direta nas regras do jogo democrático.
A utilização das Forças Armadas também serve como um paralelo sombrio entre os dois líderes. Maduro transformou os militares em sócios do Estado, garantindo lealdade através de benefícios econômicos e cargos políticos. De forma análoga, Bolsonaro buscou politizar os quartéis, nomeando um número recorde de oficiais para cargos civis e incentivando a ideia de que o Exército seria o “poder moderador” capaz de intervir caso o Judiciário ou o Legislativo contrariassem os interesses do Executivo.
A diferença fundamental entre os dois casos, contudo, reside na resistência das instituições brasileiras. Enquanto na Venezuela o Judiciário se tornou um apêndice do palácio presidencial, no Brasil o Supremo Tribunal Federal e o Congresso mantiveram barreiras que impediram o avanço de decretos autoritários. A robustez institucional brasileira agiu como um anticorpo contra a tentativa de “venezuelização” pela direita, termo ironicamente muito utilizado pelo próprio Bolsonaro para criticar seus adversários.
O desfecho de ambos os processos também ilumina os riscos à democracia. Na Venezuela, a negação do voto popular resultou em isolamento internacional e colapso social. No Brasil, a tentativa de ruptura culminou nos ataques de 8 de janeiro, uma manifestação violenta de quem se recusava a aceitar a derrota eleitoral. Ambos os episódios demonstram que, quando um líder coloca sua permanência no poder acima do respeito ao sufrágio, a estabilidade da nação é sacrificada em nome de um projeto autoritário.
Em última análise, Maduro e Bolsonaro provam que o autoritarismo não tem cor partidária exclusiva. A estratégia de se perpetuar no poder mesmo sem o respaldo legítimo do voto popular é uma patologia que pode acometer tanto a esquerda quanto a direita. O exemplo brasileiro deixa a lição de que a democracia só sobrevive quando as instituições são mais fortes que os indivíduos, enquanto o caso venezuelano serve como um lembrete trágico do que acontece quando essas mesmas instituições falham em proteger o desejo do povo.
