Jornalista Moisés Alencastro foi assassinado por ser homossexual, aponta denúncia do Ministério Público

Redação Notícia Imediata

Jornalista Moisés Alencastro foi assassinado por ser homossexual, aponta denúncia do Ministério Público
Publicado em 27/01/2026 às 14:43

A denúncia formalizada pelo Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) trouxe uma reviravolta determinante no caso do assassinato do advogado, jornalista e ativista social Moisés Alencastro. Ao contrário de interpretações anteriores, o documento assinado pelo procurador de Justiça Efrain Enrique Mendoza aponta explicitamente que o crime foi motivado por homofobia. Com a aceitação da denúncia pela Justiça, Antônio de Souza Moraes e Nathaniel Oliveira de Lima tornaram-se réus por um homicídio impulsionado pelo ódio à diversidade sexual.

O crime, ocorrido na noite de 22 de dezembro no apartamento da vítima, teve contornos de extrema violência. Segundo o MPAC, a agressão começou após Moisés exigir que os dois homens se retirassem de sua residência após um desentendimento inicial. Em resposta ao pedido da vítima, Nathaniel desferiu socos contra o jornalista, enquanto Antônio utilizou uma faca para atingir órgãos vitais, como o coração e o pulmão, além da região do pescoço.

Para o Ministério Público, a motivação dos denunciados foi pautada pela torpeza e pelo desejo de “punir e desumanizar” a vítima. O procurador destaca que o assassinato foi um ato de aversão injustificável à autodeterminação de Moisés em sua intimidade. O texto da denúncia reforça que os valores morais abjetos dos agressores transformaram um dissenso íntimo em uma execução brutal, caracterizando o crime como uma punição pela orientação sexual da vítima.

Em entrevista concedida nesta terça-feira (27), o procurador Efrain Mendoza explicou que, embora o termo “homofobia” não figure como uma qualificadora específica no Código Penal, a descrição dos fatos permite inferir essa motivação com clareza. Ele comparou a natureza do crime ao feminicídio, ressaltando que o nível de violência empregado demonstra um “excesso de dolo”. Para o promotor, a agressividade desproporcional é a prova material do ódio fóbico que guiou a ação dos réus.

A tese do MPAC rebate diretamente a possibilidade de um crime comum, focando na desconstrução da dignidade de Moisés durante o ataque. “Há uma fobia, há homofobia”, reiterou Mendoza ao descrever como o ódio direcionado à identidade da vítima explicaria a brutalidade dos golpes. O órgão enfatiza que o assassinato não foi apenas uma resposta a uma discussão, mas um ataque deliberado contra o que Moisés representava como indivíduo e ativista.

Além da violência contra a vida, os réus também respondem pelo furto dos pertences do jornalista, incluindo seu celular e veículo, abandonado posteriormente na Estrada do Quixadá. Contudo, é o agravante do ódio que agora centraliza o processo judicial. A denúncia enquadra a conduta dos acusados como homicídio qualificado, utilizando a homofobia como base para a qualificadora de motivo torpe, que dificulta qualquer possibilidade de defesa da vítima.

A aceitação desta denúncia pelo juiz Alesson Braz, da 2ª Vara do Tribunal do Júri, coloca o sistema judiciário acreano diante de um caso emblemático de crime de ódio. O reconhecimento da homofobia como motor da violência contra um profissional da comunicação e ativista social gera uma forte expectativa de punição rigorosa. O processo entra agora na fase de instrução, onde as provas de intolerância serão confrontadas com os argumentos da defesa.

A comunidade LGBTQIA+ e os órgãos de defesa dos direitos humanos acompanham o desdobramento com atenção, vendo no caso de Moisés Alencastro um marco na luta contra a impunidade em crimes de intolerância no Acre. A expectativa é que o julgamento pelo Tribunal do Júri reflita a gravidade da motivação apontada pelo Ministério Público, reafirmando que o ódio e a homofobia não podem ser camuflados sob a justificativa de conflitos cotidianos.