Bocalom ‘não manda na chuva’, mas administra recursos públicos que poderiam evitar enxurradas em Rio Branco

Marcos Dione, do Notícia Imediata

Bocalom ‘não manda na chuva’, mas administra recursos públicos que poderiam evitar enxurradas em Rio Branco
Publicado em 27/12/2025 às 13:12

A recente enxurrada que paralisou Rio Branco na última sexta-feira (26) trouxe à tona um embate que transcende a meteorologia e mergulha profundamente na estratégia política e na negligência urbana. De um lado, o grupo político e os apoiadores do prefeito Tião Bocalom (PL) consolidaram uma narrativa de defesa baseada na fatalidade, sintetizada no argumento de que “o prefeito não manda na chuva”. Essa retórica, amplamente disseminada em redes sociais, busca isentar a gestão municipal ao classificar os eventos climáticos como fenômenos de força maior, absolutamente incontroláveis por qualquer administração. Entretanto, essa blindagem política ignora um diagnóstico técnico severo: o problema da capital acreana não reside apenas na quantidade de água que cai do céu, mas na incapacidade crônica do solo urbano em absorvê-la e escoá-la.

Especialistas em urbanismo e engenharia civil apontam que, embora os volumes pluviométricos sejam de fato elevados, a severidade das inundações é diretamente proporcional à falta de infraestrutura de macrodrenagem. A cidade sofre com um sistema de galerias pluviais obsoleto e, em muitos bairros, inexistente. Enquanto a militância foca no “céu”, a realidade do “chão” revela canais e igarapés assoreados, bueiros obstruídos por sedimentos e um crescimento urbano que priorizou o asfalto sobre solo mal preparado, sem a devida compensação por meio de bacias de detenção ou sistemas de drenagem profunda. Ao pavimentar vias sem resolver o que está abaixo delas, a prefeitura acaba por impermeabilizar a cidade, transformando ruas em canais de enxurrada que arrastam bens e destroem o patrimônio da população mais vulnerável.

Além do déficit técnico, há uma questão de prioridade orçamentária que a narrativa da “culpa da natureza” tenta mascarar. O custo social e financeiro de medidas paliativas e de assistência pós-desastre tem se mostrado recorrente, drenando recursos que poderiam ser aplicados em obras estruturantes de longo prazo. A ausência de um plano diretor de drenagem eficaz e a falta de manutenção preventiva rigorosa durante os meses de seca potencializam os danos no período das chuvas. Quando os apoiadores do prefeito minimizam a falta de infraestrutura, eles desconsideram que cidades modernas e resilientes são planejadas justamente para suportar o rigor climático, tratando a drenagem não como um acessório, mas como um pilar de sobrevivência urbana.

Essa polarização entre a “fúria da natureza” e a responsabilidade administrativa cria um vácuo de soluções reais. Enquanto o debate público se perde em justificativas ideológicas, os problemas estruturais de Rio Branco permanecem submersos a cada tempestade. A aceitação da inundações como um destino inevitável é uma escolha política que retarda a implementação de tecnologias de engenharia capazes de mitigar os impactos, como jardins de chuva e a limpeza mecanizada sistemática de córregos. Em última análise, admitir que o prefeito não controla o clima é uma obviedade que não deveria servir de escudo para a ausência de obras que são de competência exclusiva do poder executivo municipal.