A oração eleitoral: quando Deus vira cabo eleitoral
Opinião de Marcos Dione

No Acre, se alguém ainda tinha dúvida de que o céu está em plena campanha eleitoral, basta assistir a uma reunião das maiores igrejas evangélicas do estado. De um lado, o pastor Agostinho, da Igreja Batista do Bosque, intercedendo fervorosamente para que Alan Rick suba ao trono — perdão, ao governo. Do outro, o pastor Luiz Gonzaga, da Assembleia de Deus, rogando aos céus pela vitória de Mailza Assis.
Se depender dessas orações, Deus deve estar passando boas horas tentando entender qual dos dois Ele supostamente deveria favorecer. Afinal, pelo visto, o povo não está na lista de prioridades, mas os candidatos, ah, esses têm linha direta!
Quando o púlpito vira comitê
A ironia maior é ver o púlpito, que deveria ser um lugar de reflexão espiritual, virar um autêntico comitê de campanha — só falta o santinho no boletim de domingo. A oração, antes universal, agora funciona quase como aquela torcida organizada: “Vai, Senhor, levanta o nosso candidato!”.
O mais curioso é que nenhum dos dois pastores parece ter lembrado de orar pelos problemas reais do Acre. Talvez porque orar por saúde, educação e segurança não dê tanta visibilidade quanto pedir a vitória de um político bem posicionado nas pesquisas.
O povo? Ah, esse que espere…
Parece até piada: duas das lideranças religiosas mais influentes do estado usam o microfone sagrado para botar Deus em campanha, e o povo — que lota os templos, paga dízimo, sustenta projetos e acredita — vira figurante de luxo.
Afinal, orar pelo bem-estar coletivo não rende manchete. Mas anunciar a “candidatura escolhida pelo céu”, isso sim chama atenção. Pena que o céu, se fosse depender dessas orações, estaria mais confuso que urna sem bateria.
Hipocrisia gospel: edição especial eleitoral
Vamos falar claro: não é pecado ter opinião política. O problema é usar a fé — que deveria ser sagrada — como arma eleitoral. É aquela velha hipocrisia de sempre: pregar amor ao próximo, mas rezar apenas por quem promete cargo, foto ou prestígio.
É como se dissessem: “Senhor, abençoa o nosso candidato… e se sobrar um tempo, dá uma ajudinha para o estado também.”
Se querem fazer política, ótimo. Mas sem fantasia religiosa.
Se pastores querem militar politicamente, que comprem o kit standard: filiação partidária, reunião em gabinete, abraço em criança na feira. Só não tentem vender isso como missão celestial.
Porque quando a oração vira palanque, e o púlpito vira plataforma de campanha, fica difícil saber onde termina a fé e onde começa a conveniência.
