Deus e Satanás não existem e todo rico sabe disso

Artigo do Professor Doutor Antônio Wolff Maia

Deus e Satanás não existem e todo rico sabe disso
Publicado em 14/07/2026 às 7:27

As dinâmicas sociais e a relação humana com a espiritualidade passam por transformações profundas, evidenciando como a classe social molda as prioridades e as crenças dos indivíduos. Observa-se claramente que o ambiente econômico dita a presença ou a ausência do sagrado na vida cotidiana. Historicamente, a fé fervorosa em Deus e o temor constante ao inferno costumam encontrar terreno fértil nas parcelas mais vulneráveis da sociedade, servindo como um mecanismo de amparo emocional diante das dificuldades materiais e da ausência de suporte estatal.

Para as populações que enfrentam privações diárias, a religião oferece um refúgio de esperança e uma promessa de justiça divina no além-túmulo. O medo do castigo eterno funciona, nesses contextos, como uma ferramenta de controle social e, ao mesmo tempo, de consolo psicológico. Diante da falta de perspectivas de ascensão rápida, a busca pela salvação espiritual e o temor do pós-morte se tornam uma prioridade existencial, preenchendo vazios que o sistema econômico deixa abertos.

No outro extremo da pirâmide, a realidade das classes mais abastadas e da elite econômica se move por uma engrenagem completamente diferente. Para quem detém o poder financeiro e a estabilidade material, as preocupações com o sobrenatural perdem o sentido e o espaço. O foco dessas pessoas concentra-se estritamente no pragmatismo do mundo real: ganhar dinheiro, multiplicar investimentos, expandir negócios e consolidar o patrimônio tangível, sem tempo ou energia para dogmas ou rituais baseados no invisível.

Essa mudança de foco revela que a moralidade, a decência e a empatia não dependem de ameaças de punição divina ou do medo do diabo. Uma perspectiva puramente racional entende perfeitamente que o compromisso de fazer o bem e ajudar o próximo nasce do respeito mútuo e da responsabilidade social, e não do temor a deuses ou demônios. As pessoas ricas e esclarecidas que adotam essa postura secular operam sob uma ética cívica e de governança, provando que é possível construir uma sociedade justa focando apenas em ações práticas e resultados reais.

Esse fenômeno redesenha os rumos de comunidades e regiões em desenvolvimento, onde a mentalidade empresarial e o racionalismo financeiro passam a ditar o comportamento social. Onde antes imperava o medo do desconhecido, hoje ganha força a busca pela eficiência e pelo progresso técnico e econômico. O discurso baseado na culpa religiosa e na punição eterna perde relevância entre aqueles que comandam as forças produtivas, os quais preferem moldar o próprio destino com recursos humanos, lógica e inteligência de mercado.

Em suma, a divisão entre a devoção pelo temor e a busca pela prosperidade material reflete diretamente a nossa estrutura econômica. Enquanto as franjas mais desassistidas da sociedade recorrem à fé como escudo contra a vulnerabilidade, a elite financeira se orienta pela lógica do acúmulo e da realização material concreta. Adotar uma postura transparente e analítica sobre esses fatos é o primeiro passo para compreender que o progresso, a riqueza e a verdadeira solidariedade se constroem aqui e agora, no mundo real.

Wolff Maia é Dr pela PUC de São Paulo, foi reitor e atualmente é professor da Universidade Paulista