Eu também já tive vontade de matar todos os colegas da minha classe; relato de quem já sofreu bullying
Opinião de Marcos Dione

A minha trajetória não é feita apenas de registros profissionais, mas de batalhas internas que começaram muito cedo. Para entender quem eu sou hoje, é preciso voltar aos bancos do ensino fundamental, um lugar que, para muitos, é de descoberta, mas para mim foi um cenário de sobrevivência. Naquela época, eu carregava o peso de ser uma criança com deficiência e homossexual em um ambiente que não sabia lidar com a diferença. O bullying era diário, cruel e sistemático. Eu era alvo de chacotas constantes dos meus colegas e, de forma ainda mais dolorosa, de uma professora que deveria me proteger e ensinar, mas que escolhia usar o deboche para me ferir.
A dor de ser humilhado publicamente por quem eu era gerou em mim uma revolta profunda. Lembro-me de sentir um ódio que transbordava; eu tinha pensamentos sombrios e uma vontade genuína de revidar toda aquela violência contra cada colega e contra aquela professora que me diminuía. Era o desespero de alguém que se sentia encurralado, sem voz e sem saída. No entanto, em algum momento entre aquele sofrimento e a vida adulta, eu decidi que não deixaria que o preconceito deles fosse o meu fim. Escolhi o jornalismo para que nunca mais ninguém pudesse me silenciar. Hoje, olho para essas cicatrizes não com desejo de vingança, mas com a paz de quem transformou toda aquela escuridão na força necessária para ser exatamente quem eu sou.minha história é o relato de alguém que sobreviveu ao sistema para finalmente poder contar a própria versão dos fatos.
