Cicatrizes da profissão: as pautas que testaram o coração de Marcos Dione
Clara Agnes, do Notícia Imediata

Com uma trajetória de 11 anos no jornalismo, Marcos Dione consolidou-se como um profissional que desafia a frieza muitas vezes exigida pela profissão. Longe de ser apenas um observador passivo da violência urbana, Dione construiu sua caminhada pautado pela empatia, permitindo que a dor do próximo ecoasse em sua própria pele. Ao refletir sobre sua década de atuação, episódios específicos, ocorridos em momentos distintos de sua carreira, permanecem como cicatrizes de sua sensibilidade no fazer jornalístico.
O primeiro grande marco aconteceu em 2017, quando Marcos era repórter da Folha do Acre. Naquele período, o cotidiano era ditado pela tensão das facções criminosas que se instalavam no estado. Acompanhado por seu colega Márcio, que o levava diariamente aos locais das ocorrências, o jornalista foi cobrir um assassinato no bairro Sobral. O que deveria ser mais um registro de rotina transformou-se em um dos momentos mais impactantes de sua vida pessoal e profissional.
Enquanto a imprensa buscava informações técnicas, a chegada da mãe da vítima rompeu qualquer barreira de impessoalidade. Ao reconhecer o filho, ela caiu de joelhos e, de braços abertos, clamou aos prantos para que Deus também a levasse. “A dor daquela mãe era algo tão profundo que atravessou qualquer barreira técnica”, relembra Marcos Dione. “Eu não me contive e chorei muito junto com ela. Ali, entendi que antes de ser um portador de notícias, eu sou um ser humano que sente o peso de cada tragédia.”
Três anos depois, em 2020, já na RedeTV, Dione viveu outro desafio emocional ao lado do cinegrafista Izaias Gomes. A equipe foi designada para cobrir o achado de um cadáver em decomposição de um homem desaparecido há uma semana. O cenário era desolador, marcado por um odor que o jornalista descreve como inesquecível. Mesmo diante da atmosfera pesada, ele entrevistou os familiares no local, testemunhando mais uma vez o impacto direto da perda violenta na estrutura de uma família.
O impacto dessa cobertura, no entanto, só transbordou após o encerramento da pauta. Ao retornar para a redação, o acúmulo da tensão e o contato com a finitude humana fizeram o jornalista desabar. “Quando entramos na redação, eu simplesmente desabei em choro e precisei ser amparado pelos meus colegas”, revela Marcos. O episódio reafirmou que, mesmo após anos de estrada, o jornalista nunca permitiu que o cinismo ou a indiferença ocupassem o lugar da compaixão.
Ainda na extinta emissora de televisão que atualmente o canal é alocado ao Grupo Norte e retransmite o SBT, o jornalista esteve em uma situação também marcante, o caso de dois corpos decapitados em um ramal, pauta em que o repórter estava com o competente e reconhecido cinegrafista Jailson Fernandes, onde a dupla precisou jantar uma pizza enquanto acompanhava o desenrolar da pauta.
Essas três reportagens simbolizam a dificuldade de separar o fato do sentimento quando se lida com a vida humana em contextos de extrema vulnerabilidade. Para Dione, as lágrimas não foram um sinal de despreparo, mas sim de uma ética que se recusa a tratar a morte como um número estatístico. Em seus 11 anos de jornalismo, ele aprendeu que a verdade de uma notícia também reside na capacidade de se indignar e sofrer com aqueles que são os protagonistas das histórias narradas.
Hoje, Marcos Dione é uma voz respeitada no Acre justamente por essa coragem de manter o coração aberto em um meio tão árduo. Sua trajetória prova que o bom jornalismo exige presença no local do crime, mas também a humildade de reconhecer que as emoções são indissociáveis do relato fiel da realidade. “Essas matérias me marcaram para sempre porque me lembraram que o nosso papel é dar voz à dor, mas nunca ignorá-la”, finaliza o jornalista.
