O fracasso glorioso de tentar ser organizado
Henrique Pierro, para o Notícia Imediata

A saga de quem compra organização em papel, mas entrega tudo nas mãos do caos.
Todo ano eu decido que agora vai. Que chegou o meu momento de ser uma pessoa organizada, disciplinada, focada, uma verdadeira divindade do planejamento. Eu compro planner, agenda, caneta colorida, post-it, até aquele adesivo motivacional que promete “mudança de vida em 30 dias”. Eu acredito. Sou trouxa, mas sou esperançoso.
O Ciclo da Desistência (em 6 dias)
Aí passam três dias. Apenas três. E o que era para organizar minha rotina vira uma biografia não autorizada da minha desistência precoce:
- Dias 1 ao 3: Anoto tudo — metas, horários, lembretes e sonhos.
- Dia 4: Escrevo “respirar” só para ter o prazer de riscar alguma coisa e sentir que fiz algo.
- Dia 5: Esqueço o planner na fábrica e a agenda no fundo da mochila.
- Dia 6: Eles já viraram uma lembrança distante, tipo uma promessa de político em época de eleição.
O Problema da Constância
Ser organizado exige uma habilidade que eu claramente não possuo: constância. Eu sou ótimo no capítulo um das coisas; sou péssimo no resto do livro.
E o pior é que tem gente que diz: “Ah, mas organização é questão de hábito”. Amigo, eu tenho hábitos. São todos ruins e bem consolidados, inclusive. Deviam me dar um certificado por eles.
“A minha vida funciona numa lógica muito própria: uma espécie de caos controlado, só que sem o ‘controlado’.”
Traduzindo o Próprio Caos
Eu me entendo no meu desespero. Minhas anotações mentais são feitas num idioma que só eu falo — e, mesmo assim, às vezes eu me perco na tradução.
Mas sabe o que me faz rir (para não chorar)? É que, mesmo falhando sempre, eu continuo tentando:
- Toda virada de mês: Eu penso “agora vai”.
- Todo domingo à noite: Eu penso “amanhã começo”.
- Toda segunda: Já estou reavaliando se vale a pena viver de forma tão ambiciosa assim.
O Hobby de Planejar (Sem Executar)
Organização, para mim, virou quase um hobby — desses que você não pratica, mas gosta de dizer que tem.
E no fim, tudo bem. Eu talvez nunca seja aquela pessoa que sabe onde está cada coisa, que anota tudo e cumpre cada meta. Mas eu sou aquela que tenta. Que tropeça. Que ri de si mesma e que se abraça no caos.
E se existe uma organização nisso tudo… É só Deus que sabe entender.
