Liderando pesquisas para o governo, Alan Rick não precisava do “mico” da oração eleitoral
Marcos Dione, do Notícia Imediata

Liderando as pesquisas de intenção de voto para o governo do Acre, o senador Alan Rick (União Brasil) parece ter cometido um deslize desnecessário ao participar de um culto em que o pastor Agostinho pediu publicamente a Deus que o “eleja” governador. A cena, gravada e divulgada nas redes sociais, rapidamente repercutiu, não pelo fervor religioso, mas pelo simbolismo político embaraçoso que carrega.
Em um Estado profundamente marcado pela religiosidade, é natural que a fé faça parte da vida pública. Mas há uma diferença entre expressar crença pessoal e instrumentalizar o sagrado como palanque. Quando um candidato já aparece em primeiro lugar nas pesquisas, a imagem de alguém “precisando de oração para vencer” soa menos como demonstração de fé e mais como um gesto de populismo religioso.
Alan Rick, que construiu sua trajetória como jornalista e líder evangélico antes de chegar ao Senado, conhece bem a força do discurso religioso no eleitorado acreano. Ainda assim, ao se submeter à encenação de um pastor pedindo que Deus o eleja, ele reforça a mistura perigosa entre púlpito e política, um terreno que, embora renda aplausos em certos círculos, desgasta a imagem pública de quem se pretende estadista.
O episódio também reacende o debate sobre os limites entre religião e política no Brasil. A Constituição garante liberdade de culto, mas também veda o uso de instituições religiosas para fins eleitorais. A linha que separa o testemunho de fé do ato de campanha é tênue — e a prudência deveria ser a bússola de qualquer pré-candidato que lidera as intenções de voto.
Alan Rick não precisava desse tipo de exposição. Com capital político consolidado, boa presença nas pesquisas e experiência parlamentar, bastava manter a sobriedade de quem já se vê pronto para governar. Deixar-se levar por gestos simbólicos e midiáticos como esse é, no mínimo, um desperdício de vantagem, e no máximo, um erro estratégico.
Porque, convenhamos: quem lidera não precisa pedir que Deus o eleja. Basta provar que merece o voto do povo.
