Não noticiar suicídios é fingir que um problema sério aflige a juventude acreana

EDITORIAL

Não noticiar suicídios é fingir que um problema sério aflige a juventude acreana
Publicado em 12/09/2025 às 12:42

O Acre tem enfrentado, nos últimos anos, um desafio silencioso, mas devastador: o aumento dos casos de suicídio, especialmente entre jovens. Esse é um tema sensível, cercado de tabus e de cuidados éticos, mas que não pode ser tratado com silêncio. Fingir que o problema não existe, por meio da ausência de cobertura jornalística ou da omissão do debate público, é contribuir para que ele continue crescendo nas sombras.

Em vez de se unir para enfrentar a crise, proprietários de alguns veículos de mídia digital do Acre reuniram-se no passado e fizeram um acordo informal para não noticiar suicídios de pessoas comuns. Decidiram que só dariam destaque quando a vítima fosse alguém conhecido, autoridade ou celebridade. Essa escolha, tomada longe dos olhos do público, demonstra como a imprensa local, que poderia ser aliada na prevenção, acabou reforçando o silêncio.

A imprensa tem um papel fundamental na forma como a sociedade encara o suicídio. Por um lado, é preciso responsabilidade: não se trata de transformar tragédias em espetáculo nem de detalhar métodos que possam estimular comportamentos semelhantes. Mas, por outro, ignorar o tema é fechar os olhos para a dor de famílias que perdem seus filhos, irmãos e amigos, e, no caso acreano, é também assumir que a vida de pessoas anônimas vale menos.

Quando a mídia se cala, reforça a ideia de que o suicídio é um assunto proibido, que deve ser escondido. Esse silêncio, em vez de proteger, pode aumentar o estigma, afastar quem precisa de ajuda e perpetuar a falta de políticas públicas efetivas. Ao contrário, falar sobre o tema com respeito, cuidado e informação pode salvar vidas, oferecendo alternativas e esperança.

É hora de a imprensa acreana rever seus pactos e assumir o compromisso de tratar o suicídio como um problema de saúde pública que atinge principalmente a juventude. É preciso abrir espaço para especialistas, psicólogos, familiares e sobreviventes da dor, sem sensacionalismo, mas com humanidade. O silêncio não protege, o diálogo, sim.