Opinião

Entre o silêncio e a denúncia: o desafio de enfrentar o assédio moral e sexual no serviço público

Marcos Dione, do Notícia Imediata

Entre o silêncio e a denúncia: o desafio de enfrentar o assédio moral e sexual no serviço público
Publicado em 08/09/2025 às 18:34

Nos últimos meses, o Acre tem assistido a uma onda de denúncias envolvendo gestores públicos do sexo masculino, acusados de práticas de assédio moral ou sexual contra servidores. Embora os casos variem em gravidade e circunstância, todos revelam um ponto em comum: a persistência de relações de poder abusivas dentro da esfera pública.

Quando um homem ocupa um cargo de chefia, é esperado que exerça liderança com responsabilidade, diálogo e respeito às equipes. No entanto, o que se observa em diferentes esferas do poder público acreano é a repetição de condutas que expõem trabalhadores a humilhações, constrangimentos, isolamento proposital, ameaças de punição ou até mesmo exigências de favores pessoais. Em casos mais graves, surgem denúncias ligadas ao assédio sexual, que ferem não apenas a dignidade da vítima, mas também a credibilidade da gestão.

A lógica do poder e a cultura do silêncio

O assédio não nasce do acaso. Ele se alimenta de uma cultura de silêncio e impunidade, em que servidores temem denunciar por medo de perder o emprego, sofrer retaliações ou serem estigmatizados como “problemáticos”. A concentração de poder nas mãos de poucos gestores cria um ambiente propício para o abuso, sobretudo quando não há mecanismos efetivos de fiscalização e acolhimento às vítimas.

Vale lembrar que cargos públicos são ocupados em nome da coletividade. Portanto, qualquer gestor que utiliza sua posição para subjugar ou explorar subordinados não apenas comete uma violência individual, mas também trai a confiança da sociedade.

O recado das instituições

A atuação do Ministério Público do Acre, da Polícia Civil e de entidades de defesa de direitos humanos mostra que há um esforço crescente para enfrentar o problema. A criação de canais como o Centro de Atendimento à Vítima (CAV) também representa um avanço, oferecendo suporte jurídico e psicológico a quem denuncia.

No entanto, a resposta institucional precisa ir além da punição. É urgente investir em políticas de prevenção, treinamentos de gestão, campanhas educativas e mecanismos que protejam servidores desde o primeiro sinal de abuso.

Um problema de gênero e poder

Não se pode ignorar o recorte de gênero presente nesses casos. A maioria dos denunciados são homens em posições de liderança, enquanto muitas vítimas são mulheres, em funções de menor poder hierárquico. Esse desequilíbrio revela não apenas falhas administrativas, mas também desigualdades estruturais de gênero que atravessam a sociedade acreana e brasileira.

Combater o assédio, portanto, significa também enfrentar o machismo institucionalizado, que naturaliza atitudes abusivas e desqualifica a palavra da vítima.

Ruptura necessária

A sequência de denúncias no Acre deve servir de alerta. Mais do que episódios isolados, os casos revelam um padrão estrutural de abuso de poder. Romper com essa lógica exige coragem das vítimas, atuação firme das instituições e uma mudança cultural profunda dentro do serviço público.

Somente quando cargos de liderança forem exercidos com ética, empatia e respeito, será possível falar em uma administração verdadeiramente democrática e comprometida com a dignidade de todos os servidores.